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Impressões de uma caminhada pelo Código Florestal
Para os que viam de fora, realmente parecia um protesto, mas para os que estavam dentro era uma caminhada com amigos. Falando alto, é claro, afinal eram, digamos, mil pessoas conversando.
Fonte Paulo Salamuni - 29/04/2011 - 17h23min Imprimir

Ontem à tarde caminhei pela rua XV, da Santos Andrade à praça Osório. Caminhei acompanhado de mais ou menos mil pessoas. Eu e essas, digamos, 999 pessoas somos contra o projeto de lei que altera o Código Florestal Brasileiro. Era interessante imaginar os percursos que levaram todos eles até ali: estudantes vindos do litoral do Paraná que viram de muito perto as conseqüências do desrespeito ao Código; professores desses estudantes; sindicalistas, que já indignados com tantas outras coisas, dedicaram seu apoio a mais uma causa; jovens ambientalistas, naturalmente os mais fervorosos – tanto pela idade quanto pela dedicação à causa, e parlamentares – na rua – reencontrando-se com os primórdios da vocação política.

Esses foram alguns perfis possíveis de traçar, os mais óbvios, porque tinham camisetas, faixas, ou simplesmente um jeito de andar meio característico. Alguns outros, entretanto, eram indecifráveis. Aquela senhora de cabelo armado enrolado com “bobs”, blazer azul marinho e salto alto o suficiente para denunciar que ela não pretendia atravessar a rua XV não se encaixa em nenhum dos perfis.  Aquela senhora, só existe uma explicação para sua presença ali. Aquela senhora era uma cidadã comum, pagadora de impostos e, à primeira vista, não muito reclamona. Ah, mas aquele bracinho pro alto, a alegria com que entoava as palavras de ordem – com algum atraso, é verdade – só me diziam uma coisa: ela se reencontrou com a democracia. Atrás de toda aquela candura existia uma militante de primeira página de jornal em 1968. Imagino o orgulho e saudosismo dela ao abrir o jornal de hoje e ver-se rotulada de “manifestante”. Que delícia!

Para os que viam de fora, realmente parecia um protesto (e a senhora uma manifestante), mas para os que estavam dentro era uma caminhada com amigos. Falando alto, é claro, afinal eram, digamos, mil pessoas conversando. Essa caminhada tinha um cheiro delicioso de democracia. Todas as manifestações foram respeitadas, todos os canteiros da rua XV foram respeitados. A defesa do Código Florestal Brasileiro é tão importante para meus, digamos, 999 amigos e para mim, que nada podia ser maior que a própria causa.

A caminhada era tão linda, pacífica e democrática, que se o relator do projeto de lei que visa à mudança do nosso Código, Aldo Rebelo, aparecesse desavisadamente na rua, saindo da Confeitaria das Famílias, o máximo que lhe aconteceria seria um maternal puxão de orelha daquela senhora de blazer azul marinho e sapatos impróprios. Ela estaria reprimindo um filho, que como ela bem deve saber, mesmo depois de grande ainda faz algumas besteiras.

João Guilherme Frey, jornalista
 

 
     


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